Papa volta a enviar perito para apurar abusos de padres no Chile

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Preocupado e até irado, por ter sido enganado em alguns casos, como dizem assessores próximos -, o pontífice nomeará hoje uma nova comissão de peritos para investigar abusos na Igreja. Nesta quarta-feira, 13, uma nova operação policial contra 14 sacerdotes mirou o Tribunal Eclesiástico de Santiago. Enquanto isso, quase 2 mil casos de denúncias contra o clero por abuso sexual se acumulam no Vaticano, sem definição.

Procurado para falar sobre o assunto, oficialmente o Vaticano afirma que continua trabalhando nos casos do Chile e destaca a nova comissão que será enviada para "investigar e aprofundar as investigações sobre os abusos". Nesta quarta, a polícia fez uma operação policial em Santiago para obter documentos da Igreja na investigação de abusos sexuais ocorridos por anos em Rancagua (a 80 km ao sul de Santiago). Ali, 14 padres são acusados de envolvimento em abusos sexuais em uma escola.

As denúncias de abuso datam de 2007 e há poucas provas a respeito - por isso, a busca e apreensão envolvem até o Tribunal Eclesiástico. "Ninguém está à margem da lei", afirmou o fiscal regional de O'Higgins, Emiliano Arias. O caso voltou a público na semana passada e, preventivamente, a Santa Sé suspendeu os 14 religiosos.

Ainda em Santiago, como enviado do papa para acompanhar a situação naquele país, o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, defendeu colaboração da Igreja com a sociedade civil. "O abuso de menores não é somente um delito canônico, também é um delito civil." Como resposta conjunta, será aberto um escritório somente para receber denúncias de abuso.

Escândalo
A discussão sobre o tema foi ampliada este ano. Em janeiro, Francisco defendeu o bispo Juan Barros Madrid, acusado de acobertar crimes de outro religioso, Fernando Karadima. Antes, em 2015, ele já havia escolhido Barros para liderar uma importante diocese no país e passou a insistir que não existiam provas contra ele.

Karadima foi quem supostamente abusou do chileno José Andres Murillo, ainda em sua infância. Outra vítima, o britânico Peter Saunders contou à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo que, ainda em 2015, levou o caso para a atenção do Vaticano. "A resposta que eu recebi dos cardeais era que o papa não teria tempo em sua agenda para avaliar uma situação em um lugar obscuro do mundo", disse. "Esse tal lugar obscuro do mundo hoje está causando um problema enorme", completou.

Em maio, o líder da Igreja mudaria seu tom. O que causou isso foi o resultado de uma investigação que Francisco encomendou em total sigilo e resultou em 2,3 mil páginas de uma detalhada avaliação. Ao concluir a leitura do informe, o papa enviou carta aos bispos sul-americanos, descrevendo sua "dor e vergonha".

Dentro do Vaticano, aliados do papa insistem à reportagem que ele foi enganado. Tal ira foi traduzida em um comunicado em que reconheceu que cometeu "sérios erros de avaliação e de percepção sobre a situação, especialmente por causa da falta de informação verdadeira e equilibrada". Em público, ele pediria perdão pelos "graves erros" - que levariam à renúncia coletiva dos bispos chilenos. Três renúncias foram aceitas nesta semana: Juan Barros, de Osorno, Gonzalo Duarte e Cristian Caro de Puerto Montt.

 

Fonte: Estadão Conteúdo