Entidades encerram projetos sociais por falta de recursos

Cultura e Artes

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Sem dinheiro para pagar funcionários e comprar materiais, entidades carnavalescas estão fechando as portas de parte dos projetos sociais voltados para a educação e qualificação profissional de crianças, adolescentes e mulheres carentes da capital baiana.

A recessão atinge diretamente blocos afros, como Ilê Aiyê, sediado no Curuzu, e a Associação Educativa e Cultural Didá, localizada no Pelourinho, que estão operando com metade da capacidade em algumas iniciativas por falta de condições financeiras para manter os projetos.

Atualmente, o Ilê mantém apenas dois dos três projetos que desenvolve: as escolas Mãe Hilda e Band'Erê, que funcionam na Senzala do Barro Preto, sede do bloco. Por sua vez, os cursos profissionalizantes estão com as atividades suspensas desde 2014.

Ainda assim, a escola de ensino fundamental Mãe Hilda atende 120 alunos, quase metade da capacidade que tem para receber 200 estudantes.

Já a Band'Erê (ensino complementar) retomará as atividades, em 2018, para 80 alunos, depois de ficar sem funcionar nos últimos dois anos.

As aulas suspensas dos cursos profissionalizantes atendiam uma média de 360 jovens por ano na comunidade, dos 17 aos 29 anos, que recebiam capacitação de ajudante de cozinha, operador de telemarketing, eletricista predial, dança e fabricação de instrumentos.

Convênio

Segundo o presidente do Ilê, Antônio Carlos dos Santos, o Vovô, a situação financeira dos projetos ficou comprometida, a partir de 2014, quando foi encerrado o convênio de incentivo à cultura com a Petrobras, quando a estatal petrolífera passou a ser investigada no âmbito da Operação Lava Jato.

O dirigente informa que a instituição lançou, no ano passado, uma campanha virtual para arrecadar R$ 30 mil para os projetos, mas as doações não chegaram a R$ 10 mil. "Todo mundo diz que ama o Ilê, mas, na hora de ajudar, não ajudou. Eu fiquei muito decepcionado", lamentou.

Vovô também critica o fato de empresas da iniciativa privada não contemplarem os blocos afros nos editais de cultura. "Quando se trata de uma agremiação negra, tudo é mais difícil. As pessoas têm uma ideia equivocada de que bloco de Carnaval está nadando em dinheiro", continua.

Segundo Vovô, no último Carnaval, apenas um terço das 1.500 pessoas que saíram na agremiação pagaram a fantasia carnavalesca. "Nessa hora, todo mundo sabe nos procurar. Inclusive gente da iniciativa privada e do poder público", aponta.

Vovô diz, ainda, que as dívidas acumuladas pela instituição, boa parte referente a processos trabalhistas, ultrapassa a casa de meio milhão de reais. "Tem ex-funcionário que saiu do Ilê dizendo que trabalhava 24 horas e pediu indenização de R$ 1,5 milhão. Imagine!", exclamou.

Edital

De acordo com Vovô, as atividades da Band'Erê só funcionarão este ano por causa da contemplação do Ilê em edital da Secretaria de Cultura do estado. "Que vai ajudar a aliviar as despesas com manutenção por três anos", calcula o carnavalesco.

Um dos coordenadores dos projetos sociais do Ilê, Vivaldo Benvindo informa que, apesar do quadro, a agremiação conseguiu manter o curso de bloco afro (dança, percussão e estética afro) para 360 pessoas nas comunidades do Curuzu, de Valéria e Mussurunga.

"Os jovens que faziam os cursos profissionalizantes de ajudante cozinha e eletricista predial saíam praticamente empregados", recorda. "Já esse curso de bloco afro, teremos condições de manter até o próximo mês de abril", acrescenta.

 

Fonte: A Tarde