Salvador inaugura primeira casa para estudantes quilombolas do Brasil

Educação

acas

O sustento parar financiar os estudos dos filhos vem do mar. Mas é também o mar que distancia os jovens do sonho de continuar estudando. Era assim em Ilha de Maré, uma das três ilhas que são bairros de Salvador. Até a capital, são cerca de 20 minutos de barco até a Base Naval de Aratu, e mais algumas horas até chegar, por terra, à universidade. Agora, muitos estudantes de Maré vão passar a ter residência fixa em Salvador sem precisar enfrentar o roteiro cansativo para estudar. Isso porque a prefeitura entregou as chaves da Casas do Estudantes Quilombolas da Ilha de Maré na manhã desta terça-feira (10).

A residência estudantil é a primeira do Brasil a ser destinada aos quilombolas. Ela está localizada na Rua Doutor Otaviano Pimenta, no Matatu de Brotas, e tem a capacidade para receber até 30 estudantes. Todos precisam pertencer a alguma comunidade quilombola da ilha e estar devidamente matriculados em instituições de ensino superior. Das cinco comunidades que existem Salvador, quatro ficam em Ilha de Maré: Praia Grande, Botelho, Passa Cavalo e Bananeiras.

Ivete Sacramento, títular da Secretaria Municipal de Reparação (Semur), diz que a criação da residência faz parte de uma dívida histórica do município que só reconheçou as comunidades recentemente na ilha e de um planejamento estratégico da gestão municipal para garantir a reparação dos direitos das minorias.

Até então, conta Ivete, muitos jovens desistiam do sonho de continuar os estudos pelo trajeto cansativo até as universidades, além alto do custo de vida em uma cidade grande.

"Eles viviam isolados, excluídos do processo educacional de nível superior. Não possuíam acesso à educação presencial, por conta do ir e vir, e, na sua grande maioria, os estudantes quilombolas não têm condições financeiras de estar se deslocando ou alugando uma casa em Salvador. A criação da residência visa tratar de forma diferente quem, historicamente, foi tratado como diferente", observou a secretária.

Embora tenha capacidade para receber 30 estudantes, apenas três já estão morando na residência universitária, que funciona há duas semanas. Elas já estavam matriculadas em uma universidade e moravam em outros bairros de Salvador. Outras sete pessoas vão assentar as malas nos próximos dias.

Mudança
Mas tem aqueles se estão se preparando para, futuramente, conseguir uma vaga em alguma universidade e morar na residência universitária. É o caso de Caroline Neves, 18 anos, que participa de um curso pré-vestibular na Ilha, e quer se preparar para conseguir ingressar no curso de Fisioterapia.

"Nós, da ilha, temos dificuldade para fazer qualquer coisa em Salvador por conta da travessia. Então, quando surgiu a casa, foi uma grande oportunidade para a gente. Isso é muito importante porque os nossos pais não possuem condições de arcar com as despesas de um aluguel", conta Caroline.

Haila Carvalho, 21 anos, já está no terceiro semestre do curso de Enfermagem na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). À princípio, após ser aprovada no vestibular, ela se mudou para a região da Avenida Suburbana, mas ainda assim era complicado chegar a tempo nas aulas, no Cabula.

"Passei a dividir aluguel com minha irmã, mas ainda assim era difícil por ser longe e ter que pegar dois ônibus até à universidade. A criação da casa vai refletir muito no aumento de universitários na ilha. Fomos uns dos primeiros, mas, agora, muitos outros virão", comemora a estudante.

A casa conta com seis quartos, dois banheiros - um dele social -, aréa de serviço, refeitório, sala de estar e um espaço de estudos.

"Nós vamos poder acolher e abrigar esses jovens de maneira que todo o percurso deles no ensino superior possa ser assegurado, com um lugar para morar e se alimentar, com segurança, qualidade, com acesso inclusive à informática", comemorou o prefeito ACM Neto.

 

Fonte: Correio 24h